O anão, o mago e o guerreiro.
O anão, o mago e o guerreiro descansavam à sombra de uma árvore, entre um RPG e outro, quando o guerreiro perguntou ao mago:
- Quem será que venceria uma batalha entre nós dois?
- Eu certamente – respondeu na mesma hora o mago. – Com minha magia superior eu aniquilaria você sem tirar uma lasca do meu cajado.
- Discordo – retrucou o guerreiro. – Meu escudo repeliria seus ataques e minha espada cortaria seu cajado em dois.
- O que você acha anão? – perguntou o mago. – Quem venceria?
O anão acompanhava a conversa deitado na relva com um ramo de capim à boca. Levantou, limpou as roupas com as mãos e respondeu:
- Não passou pela cabeça de vocês que talvez eu possa vencer os dois?
O guerreiro e o mago caíram na gargalhada. O guerreiro dava murros no chão sem conseguir parar de rir. O mago, com a mão na barriga, dobrava o corpo ao meio tentando parar o acesso de riso.
- Desculpe amigo anão – falou o guerreiro ainda rindo, – mas acho que você não está à altura de uma luta contra nós.
- Não mesmo – completou o mago sem fôlego. – Está muito baixo.
Os dois voltaram a rir ainda mais. O anão resmungou alguma coisa mal humorada na língua mal humorada dos anões.
- Não se zangue amigo – voltou a falar o mago vendo a reação do anão. – Eu posso dar um jeito nisso. Com minha magia posso deixá-lo da nossa altura, para uma luta justa.
- E por que você acha que eu gostaria de ter a altura de vocês? – Perguntou o anão ainda de mal humor. – Por que vocês acham que todo o anão quer ser alto? Eu estou feliz do jeito que sou. Me daria tontura ter a cabeça tão longe do chão como vocês. – fez uma pausa, resmungou e concluiu: – Muito obrigado mago, mas pode afastar sua bruxaria de mim. Não quero virar um pernalta desajeitado como vocês. Quero continuar do meu tamanho mesmo.
- Pernalta desajeitado? – Reclamou o guerreiro com um sorriso divertido. – Faça o seguinte mago. Use sua magia para nos deixar do tamanho do anão, assim poderemos provar a ele que jamais nos venceria em uma luta.
- Ótima ideia – concordou o mago. – Vamos dar uma lição nesse pequeno. – Completou sorrindo com a mão no ombro do anão.
E assim aconteceu. O mago proferiu algumas palavras místicas, tocou levemente com o cajado na cabeça do guerreiro e depois na própria cabeça. No mesmo instante uma nuvem de fumaça escondeu os dois. Quando a fumaça se desfez, os dois estavam do mesmo tamanho do anão. Suas roupas e armas haviam diminuído na mesma proporção.
- Nós estamos com a mesma força e nossas armas com a mesma resistência – explicou o mago. – Apenas estamos menor em tamanho.
- Ótimo! – exclamou o guerreiro olhando para seu corpo. – Até que este tamanho me cai bem. Agora se prepare para uma lição anão. Você me parece mais forte visto dessa altura, por isso será mais divertido derrota-lo. Não se preocupe, não vou machuca-lo. Quero apenas joga-lo sentado na grama.
Mas falar era mais fácil que fazer, e quem acabou sentado no chão foi o guerreiro, com o traseiro e o orgulho feridos. Isso porque ele estava confiante demais. Quando partiu para o ataque, disposto a derrubar o anão com o seu escudo, não esperava o potente golpe de machado que partiu o escudo em dois. Em seguida tentou tirar o machado do anão com um golpe da espada, mas quando as armas se chocaram, o guerreiro acabou rodopiando sobre os calcanhares e ficando de costas para o oponente. O anão então tomou impulso e deu-lhe uma potente cabeçada no traseiro, arremessando-o a cinco metros de distância.
- Parece que você subestimou nosso pequeno amigo – falou o mago rindo da cena. – Vou mostrar como se faz.
Falando isso, o mago proferiu algumas palavras incompreensíveis e apontou seu cajado. O anão se esquivou rapidamente do ataque. Por ser baixo era fácil para ele dar cambalhotas para os lados, fugindo assim do ataque adversário.
- Fique parado anão – resmungou o mago atirando raios de magia por todos os lados.
Como não conseguisse acertar o oponente, o mago então bateu seu cajado no chão proferindo novas palavras mágicas. No mesmo instante inúmeras rochas, pequenas e grandes, surgiram por todo o terreno, impedindo o anão de continuar com as cambalhotas. O anão teve que parar. Satisfeito com o resultado o mago apontou novamente o cajado e disparou nova magia. O anão não tinha como evitar o raio, as rochas eram grandes o suficiente para evitar suas cambalhotas, mas pequenas demais para se esconder atrás. Por isso cruzou seu poderoso machado contra o peito como um escudo e enfrentou o ataque. A tática deu certo e o feitiço não o atingiu. Porém seu poderoso machado, que absorveu todo o ataque, acabou se transformando numa imensa pena cinzenta de avestruz.
- Parece que você encontrou um arma à altura da sua valentia – falou o mago rindo alto e sacudindo o corpo.
O anão olhou para o mago em seu acesso de riso, olhou para o seu machado transformado em pena, teve uma ideia e correu para frente. Chegou junto ao mago no momento em que este começava a preparar um novo ataque mágico. O anão, usando a pena como uma espada, fez cócegas no pescoço do mago impedindo-o de completar o ataque. Como resultado, as palavras mágicas saíram entrecortadas com o riso, anulando o efeito da magia. Da ponta do bastão saiu apenas uma chuva de pequenas estrelas coloridas, como fogos de artifícios. O anão continuou com sua tática impedindo o mago de evocar um magia por inteiro. O mago ria, tossia e espirrava com as cócegas tentando sempre evocar um feitiço. Mas a cada espirro, um arco-íris saia da ponta do cajado e iluminava o céu. A cada gargalhada o chão em torno deles se enchia de margaridas de todas as cores. Coelhos verdes apareciam saltitando pela grama. Pequenos elefantes rosas, com minúsculas asas, voavam pelo céu. O espetáculo mágico encantaria a mais emburrada das crianças.
Por fim o mago desistiu, jogou o cajado para o lado, sentou-se na grama e, ainda gargalhando, conseguiu falar:
- Muito bem amigo anão, você venceu, eu desisto.
O anão deu um sorriso satisfeito e parou com a tortura.
Mais tarde naquele dia, quando o mago e o guerreiro já haviam voltado ao tamanho real, a pena de avestruz era um machado novamente e o escudo do guerreiro estava consertado, os três amigos puseram-se a caminhar. O mago e o guerreiro tentavam entender como pôde o anão vencer os dois. Chegaram então à conclusão que o anão vencera porque era anão há muito tempo, porque acreditava e confiava em si mesmo, nunca tentando ser algo que não era. Porque era feliz, lutava e pensava como um anão e, principalmente, porque sabia que o tamanho de um homem não está na sua altura, e sim na grandeza da sua vontade.
- Isso mesmo – concordou o anão bem humorado, na língua bem humorada dos anões. – Isso mesmo.
Os três amigos sorriram e continuaram a caminhar à procura de um novo RPG.
fim
- Um comentário
- lauroelme | 15 de outubro de 2009 | 22:40 | Aventirinhas []
A princesa e o Manequim – Terceira parte (última)
Como vimos no final da segunda parte, os príncipes pretendentes à mão da princesa Matildra começaram a subir ao altar do trono para experimentar o terno. Atrás de um biombo eles eram auxiliados pelo alfaiate e o mago a entrar na tal vestimenta.
O primeiro a se apresentar foi o príncipe Adjir do reino de Ilhaaosul, localizada na ilha ao sul. Adjir era um príncipe baixo, forte e musculoso com enormes braços e ombros largos. O terno ficou muito apertado em torno de seu corpo arredondado, o tecido só não se rasgou graças à mágica do mago que tornou o terno resistente a qualquer mal trato. A calça terminava na canela peluda, enquanto o paletó não podia ser abotoado em torno de seu peitoril largo. A gravata ficou curta demais e a camisa não parava dentro das calças. Mesmo assim Adjir se apresentou sorridente e feliz perante a princesa.
- Serviu perfeitamente – falou numa voz estrangulada pela gravata apertada. – É como se tivesse sido feito para mim – completou.
A platéia soltou um murmúrio de desaprovação enquanto os pais de Adjir aplaudiam a apresentação do príncipe. O Rei pediu silêncio e, após ser obedecido, olhou interrogativo para a princesa.
- E então minha filha? – perguntou. – Esse é o escolhido?
Matildra torceu o canto da boca e olhou para o príncipe espremido dentro da roupa menor que ele. Pensou por dois segundos e disse apenas uma palavra: - Próximo.
– Que entre o próximo candidato gritou o rei enquanto Ma-go e Alfa-iate levavam Adjir, que estava começando a ficar azul, para trás do biombo a fim de tirar o terno.
O segundo pretendente foi o príncipe Alzenir. Ao contrário de Adjir, Alzenir era magro e alto. Essas qualidades porém não foram suficientes para fazer o terno lhe vestir bem. A calça e o paletó ficaram extremamente curtos e a camisa branca extremamente folgada devido à falta de massa corporal para preenche-la. O príncipe ficou parecendo um enorme espantalho sem palha vestido em folgadas roupas de palhaço. Mesmo assim Alzenir caminhou confiante até a princesa Matildra e dobrou-se, feito um bicho pau, numa reverência.
– Eu sabia que esse terno foi feito para mim – falou sorridente.
Sentado onde estava, o pai de Alzenir, duas vezes mais alto e com a metade do peso do filho, gritou: – Isso sim é elegância.
A platéia manifestou novamente sua desaprovação e Matildra, mais uma vez, proferiu a sábia palavra: – Próximo.
Um a um os candidatos foram se apresentando, mas nenhum conseguiu vestir com elegância o precioso terno. Algumas vezes por excesso, outras por falta de príncipe para preenche-lo.
O último a se apresentar foi o príncipe Grandouf. Quando Grandouf entrou, todos concordaram que o terno até poderia ter-lhe caído bem, se fosse feito para alguém com vinte centímetros de altura. O pequenino príncipe entrou arrastando as abas e as mangas do paletó atrás de si. Caminhou até Matildra e falou, olhando para cima: - Sua procura terminou princesa.
- Posso ouvi-lo mas não posso vê-lo – respondeu Matildra olhando para baixo. - Próximo – gritou para o pai.
- Não existe próximo minha filha – comunicou o rei, – este foi o último.
Os convidados não conseguiram esconder a decepção. Tantos candidatos e nenhum se mostrou à altura da maravilhosa vestimenta. Pelo contrário, a nobre roupa foi humilhada, arrastada e maltratada. Por isso sentiram certo alívio quando Alfa-iate vestiu novamente o terno no manequim mostrando sua verdadeira elegância e grandiosidade.
- A princesa fará sua escolha agora – comunicou o rei quando todos os candidatos, vestidos em suas próprias roupas, colocaram-se ao lado do manequim no pequeno palco.
Um murmúrio percorreu a multidão. “Quem será o escolhido?” perguntava um. “Eu acho que será o varapau” arriscava outro. “Eu gostei do pequenino” emendava outro ainda. “Como? Só se via o terno?” “ Por isso mesmo!”
Somente quando o silêncio voltou a reinar a princesa levantou do seu lugar. Olhou demoradamente para a fila dos doze príncipes ao lado do manequim e falou alto para que todos pudessem ouvir: - O primeiro – anunciou.
- Adjir? – perguntou o rei incrédulo ao mesmo tempo que o príncipe começava a pular de alegria.
- Não – cortou a princesa. – Antes dele.
- Mas Adjir é o primeiro da fila – argumentou o rei. – Antes dele só há o manequim.
- Exatamente – concordou a princesa – Eu escolho o manequim para meu noivo.
Um oh! De exclamação percorreu os presentes.
- Mas é apenas um boneco minha filha – falou o rei. – Foi usado apenas como modelo para o terno.
- Exatamente papai – concordou mais uma vez a princesa. – Ninguém vestiu o terno tão bem e com tanta elegância como ele. – Todos balançaram a cabeça concordando com a indiscutível verdade. – Essa era a condição para a escolha. Portanto eu quero o manequim para meu noivo.
A multidão não se conteve. Todos começaram a falar ao mesmo tempo. “Isto está certo?” “Eu acho uma ótima escolha” “Concordo com você, os calados são os melhores maridos”
- Silêncio – ordenou o rei anunciando sua decisão. – A princesa está certa. A condição para a escolha do noivo era vestir com perfeição o terno criado por Alfa-iate. O terno foi criado sobre o manequim, por isso ele é o único que valoriza a elegância da roupa. – O rei fez uma pausa. Ordenou que trouxessem o manequim para o centro do palco. Chamou Matildra e colocou os noivos lado a lado. Depois de feito os arranjos, concluiu: – Iniciem a festa para o casamento de Matildra e o manequim.
A multidão comemorou levantando os ombros. Haveria uma festa de casamento, isso é o que importava. Os mais descontentes com a decisão eram os príncipes candidatos. Por isso começaram a provocar.
- Diga alguma coisa manequim – gritou Adgir provocando risadas no público.
- Dance para a gente – emendou Alzenir chateado por não ser o escolhido.
Todos riram mais alto. Aplatéa começou a ver o ridículo da situação. O rei ficou encabulado e sem palavras, enquanto Matildra olhava para os lados nervosa. A piada final veio do pequenino Grandouf:
- Pode beijar a noiva manequim.
Foi uma explosão de gargalhadas. Ninguém conseguiu segurar o riso. Sem conter a raiva, Matildra gritou bem alto para os candidatos:
- Eu mesma posso fazer isso. Prefiro me casar com esse boneco a beijar qualquer um de vocês. – Dizendo isso Matildra ficou na ponta dos pés e depositou um beijo na face de boneco do manequim.
Nesse momento algo fantástico aconteceu. Uma intensa luz pareceu sair do boneco iluminando todo o ambiente. A platéia emudeceu. Todos levaram as mãos aos olhos protegendo-se da luminosidade. O rei e a princesa deram um passo para trás. No centro da luz foi possível ver a silhueta do manequim elevar-se meio metro acima do chão, girar lentamente por duas vezes no sentido anti horário e voltar novamente para o solo. Quando a claridade voltou ao normal todos puderam ver no lugar do manequim um perfeito príncipe em carne e osso vestindo o terno azul marinho. Tinha a mesma aparência e a mesma elegância do boneco.
Pela segunda vez na noite um oh! de exclamação percorreu a platéia boquiaberta. “É um príncipe de verdade” cochichou alguém. “O mais belo príncipe que já vi” respondeu outro.
Encantada com a bela visão e feliz com a escolha que fez, Matildra foi a primeira a falar: – Quem é você – perguntou.
– Eu sou o Manequim – respondeu o príncipe olhando a todos com olhos surpresos.
- Esse é o seu nome? – Perguntou desta vez o Rei. Aproximando-se novamente do casal de noivos.
- Sim – respondeu o príncipe. – É a união dos nomes dos meus pais. Meu pai se chamava Manuel e minha mãe se chamava Joaquim.
- E como você apareceu aqui? – perguntou a rainha, chegando pela primeira vez perto da filha.
Confuso e sem saber o que responder, Manequim abriu a boca para falar. Mas não chegou a faze-lo, porque no meio dos convidados reais alguém gritou com emoção: – É meu sobrinho, É meu sobrinho.
Era Rei-naldo quem gritava feliz. Senhor de Montanhasdonorte e convidado de seu amigo Re-i para assistir ao casamento, Rei-naldo não tinha herdeiros, pelo menos não até aquele momento, por isso não pode apresentar um candidato à mão da princesa.
- É o meu sobrinho – repetiu emocionado indo até o palco e abraçando o rapaz. – Ele foi levado ainda criança pela Bruxa do Leste – explicou a todos. – Ela deve te-lo transformado em um boneco e assim ele permaneceu por todos esses anos. Até hoje quando o encanto foi quebrado pelo beijo da princesa Matildra.
A platéia explodiu em vivas. Agora sim, teriam um casamento de verdade com um príncipe de verdade. Rei-naldo e Re-i abraçaram-se felizes com a união de seus herdeiros e a aproximação dos dois reinos.
Tirando os doze candidatos, que agora não tinham mais motivos nenhum para piadas, todos estavam felizes. Ninguém porém estava mais feliz que os noivos. Ela por ter confiado no terno e escolhido o príncipe certo. Ele por ter sido libertado do encanto pela bela princesa.
E assim aconteceu. Naquela noite Matildra e Manequim casaram-se e viveram felizes por muitos e muitos anos.
Moral da história: “Cada um veste o que lhe fica bem. Seja feliz como você é. Não inveje a roupa (a vida) dos outros”.
Por isso naquela mesma noite o alfaiate pegou as medidas dos príncipes não escolhidos e, nos dias seguintes, confeccionou para cada um deles um belo terno que realçava suas qualidades.
Fim
A princesa e o manequim - Segunda parte.
Como vimos na primeira parte da história, enquanto os mensageiros do rei percorriam as planícies levando o comunicado do casamento da princesa, o mago foi pedir ao seu amigo Alfa-iate uma encomenda especial.
Alfa-iate olhou para o mago por detrás de seus enormes óculos e repetiu suas palavras: – Um terno para o futuro príncipe do reino? – Pensou um pouco enquanto limpava os óculos na ponta do avental. Por fim concordou: – Está bem, farei o mais perfeito traje que este reino já viu.
- Isso não deve ser difícil, já que esse reino jamais viu um terno – resmungou o mago ainda de mal humor, seu estado natural.
- Você se engana, velho amigo – retrucou o alfaiate. – Justamente por jamais terem visto um terno, todos no reino esperam por algo fantástico e deslumbrante. É mais difícil surpreender as pessoas quando elas não sabem o que verão.
- Você é quem sabe – resmungou novamente o mago – Você é quem sabe – repetiu. – Daqui a uma semana o terno deverá ser entregue no palácio
- Assim sera feito – garantiu Alfa-iate.
Aquela semana foi de muita agitação em todo o reino. A princesa cuidava de sua beleza. Pintou o cabelo três vezes, só ficando satisfeita quando conseguiu deixá-los com cor de berinjela. A rainha não fazia nada, apenas distribuía ordens que ninguém cumpria. Naqueles dias comeu tantas frutas que vivia com os pés e a boca sempre melados. O rei, por seu lado, se empenhou em cuidar da festa e receber os relatórios dos mensageiros enviados aos reinos vizinhos. Todos os reis prometeram ir à festa juntamente com seus filhos em idade de casamento. Cada um deles garantiu que seu filho seria o escolhido pelo terno, embora jamais tivessem ouvido falar em tal vestimenta. Apenas Naldo, o rei das longinquas montanhas do norte não enviaria candidato. Rei Naldo foi pessoalmente até Reinomuitodistante dar a notícia.
- Estou muito feliz por sua filha Matildra – falou Rei-naldo ao Re-i. – Infelizmente meu reino não possui um príncipe para participar do evento. Eu não tenho filhos e meu único sobrinho, o herdeiro natural ao trono de Montanhasdonorte, foi raptado pela bruxa do leste quando era ainda uma criança.
- Isso é uma pena – falou Re-i, o rei, – Mesmo assim eu gostaria que sua majestade ficasse para os festejos.
Rei-Naldo concordou e ficou no palácio até o dia do casamento.
O tempo passou sem maiores incidentes. No dia marcado para a cerimônia o reino acordou agitado e ansioso. Logo de manhã começaram a chegar os príncipes candidatos. Vinham seguidos de grandes e alegres cortejos.
Ao todo, doze príncipes, dos mais diferentes e distantes reinos, apareceram para o teste. Os reis e rainhas também vieram, acompanhando seus filhos. Cada cortejo que chegava era anunciado com estardalhaço e a multidão se espremia na praça em frente ao palácio para ver os pretendentes. Porém, o grupo mais barulhento era o das princesas, irmãs dos candidatos. Elas foram chamadas por Matildra com a ajuda de Or-kut, o mensageiro especial do reino. Assim que chegavam, as princesas iam correndo para a torre da noiva conversar sobre cabelos, cor de cabelos, matemática, astronomia, garotos cabeludos, bandas de rock, física nuclear e outras frivolidades.
Matildra estava radiante. Sentia-se a mais feliz das princesa cercada de tantas amigas. Nem se lembrava mais do casamento, por isso saiu pisando duro quando sua mãe mandou avisar que ela deveria ir para o salão principal para o início da “Cerimônia de Experimentação Ternal”.
No grande salão palacial, o rei, a rainha e a princesa ficaram em seus tronos esperando os candidatos. Os outros reis, incluindo Rei-naldo e os convidados ilustres assistiam da platéia. A população se acotovelava tentando ver alguma coisa. O burburinho geral aumentou quando Ma-go, o mago e Alfa-iate, o alfaiate entraram carregando algo que parecia ser uma estátua coberta. O rei exigiu silêncio enquanto o alfaiate lentamente descobria a peça.
Todos prenderam a respiração, iam finalmente saber o que era um terno. Quando o alfaiate retirou o tecido por completo, revelou um imponente manequim cor de pérola trajando um elegante terno azul marinho perfeitamente confeccionado. A reação foi geral. Alguns torceram a boca “Isso é um terno?”. Outros, as mulheres principalmente, suspiraram ante a elegância do boneco.
Os doze candidatos, perfilados para o início dos testes, também reagiram: “Será que isso pode ser usado em batalha?” perguntou um. “Você não terá chance de saber. Ele será meu com certeza”, respondeu o que estava na frente.
Até Matildra que vinha chutando o ar desde que saiu do seu quarto, esqueceu o mal humor ao ver tanta beleza. O manequim e o terno formavam uma visão perfeita e atraente.
- O homem que couber em tão magnífico traje, certamente será o noivo perfeito para você, minha filha – comentou o rei, também impressionado.
- Vamos logo com isso papá – pediu Matildra, agora empolgada.
Dessa forma teve início a cerimônia. Com a ajuda de Alfa-iate, um a um, os príncipes pretendentes começaram a subir no altar do trono para experimentar o terno, a magnífica vestimenta que lhes daria, não só status mas também a mão da princesa Matildra.
Continua…
A princesa e o manequim - Primeira parte.
Esta estranha história aconteceu há muito tempo atrás num distante reino chamado: Reinomuitodistante. Reinomuitodistante era governado por um bondoso rei chamado: Re-i e por uma gentil rainha chamada: Ra-inha. Os dois possuíam uma única filha, a princesa do reino, que se chamava: Matildra.
Tudo começou certa manhã, quando Matildra levantou com um pensamento: “Quero me casar”. Transmitiu sua vontade ao pai durante o lanche matinal. Como todas as manhãs o salão estava cheio de convidados e funcionários do reino. Na mesa principal o rei, seguindo a tradição da família, tomava sopa de canudinhos enquanto a rainha comia manga no pé.
- Papai. Quero me casar – comunicou a princesa Matildra entre uma colherada e outra de pudim de quiabo, seu prato predileto.
O rei largou sua sopa, limpou a boca nos longos cabelos reais e olhou para sua filha com os olhos marejados.
- Gostaria que sua mãe estivesse viva para ouvir isso.
- Mas eu estou viva – gritou Ra-inha, a rainha do outro lado da mesa, com a boca suja de manga.
- A rainha está viva – gritaram todos no salão. – Viva o rei.
Foi uma alegria geral. Copos voavam, brindes e vivas para todos os lados.
- Papai! – gritou Matildra por cima da balburdia. – Eu quero me casar.
- Silêncio – gritou o rei sacudindo a barba suja de sopa. – Silêncio – repetiu, e quando todos obedeceram, voltou-se para a filha: – Posso saber quem é o noivo?
- O que é isso? – perguntou Matildra, inexperiente que era nessas coisas de casamento. – Eu vou precisar de um?
- Geralmente é preciso de um noivo sim – respondeu paciente o pai. – E no seu caso deve ser um príncipe – concluiu.
- E onde acharemos um príncipe para Matildra – perguntou a rainha do outro lado da mesa, com a boca suja de abacaxi.
- Temos que chamar Ma-go, o mago – falou o rei depois de pensar um pouco.
Imediatamente um mensageiro foi enviado até a ala sul do corredor norte na parte oeste do palácio para chamar o mago em seu aposento. Ma-go estava dormindo abraçado ao seu ursinho de pelúcia, como fazia todas as manhãs, por isso acordou de mal humor, como acontecia todas as tardes.
- O rei solicita sua presença – comunicou o mensageiro em seu quarto.
- Diga que já… – falou o mago antes de desaparecer numa nuvem de fumaça – … estou aqui majestade – concluiu aparecendo em outra nuvem de fumaça ao lado da mesa real.
O rei, que não se assustava mais com as aparições repentinas do mago, falou secamente: - Minha filha quer se casar.
- Estou muito velho para isso meu senhor – exclamou o mago surpreso e levemente corado. – Mas aceito a honra.
- Ela não quer se casar com você – gritou a rainha do outro lado da mesa com a boca suja de caqui. – Ela vai se casar com um príncipe.
- Meus parabéns princesa – falou o mago, envergonhado e voltando a ficar de mal humor. – Agora, se me dão licença quero voltar a dormir.
- Não o chamei aqui apenas para lhe dar a notícia – interrompeu o rei. – Quero que você providencie um noivo para a princesa.
- Então ela ainda não tem um noivo? – Perguntou surpreso Ma-go, o mago.
- Claro que não – falou a rainha defendendo a filha, do outro lado da mesa, com a boca suja de goiaba. – Ela não pode pensar em tudo. Só o casamento já toma muito tempo de sua cabecinha real.
- Eu não sou um padre, sou um mago. Como irei arranjar um noivo para a princesa Matildra?
- Não se preocupe com isso – falou o rei. – Eu mandarei um comunicado a todos os príncipes solteiros dos reinos vizinhos. Você só terá que descobrir um meio de escolher qual o melhor deles para a princesa.
- Neste caso é bem simples – falou Ma-go aliviado. – Basta confeccionar o mais belo terno que já foi feito. Aquele que couber perfeitamente dentro dele será o escolhido.
- Terno? – Perguntou o rei. – O que é isso? Uma carruagem? Uma caixa de torturas? O que é?
- É uma vestimenta meu senhor – explicou o mago. – Uma elegante vestimenta que o futuro príncipe de Reinomuitodistante deverá usar.
- Ótimo. Assim será – concordou o rei ficando em pé. Levantou sua taça de vinho de fígado de bacalhau e fez o pronunciamento: – Comece os preparativos para o teste, que eu mandarei chamar os príncipes. Em uma semana a princesa Matildra irá se casar.
- A princesa vai se casar. Viva o rei – gritaram todos brindando.
E assim aconteceu. Enquanto os mensageiros do rei percorriam as grandes planícies levando seu comunicado de palácio em palácio, Ma-go, o mago, foi conversar com seu velho amigo Alfa-iate, o melhor alfaiate de todo o reino.
Continua…
Aventirinha: O Vulto
As aventuras de Mário e Mauri
O vulto
Terceira parte (final)
Mário começa a ouvir então um zumbido fraquinho, como de um pernilongo, que vai aumentando devagar como se o inseto estivesse achando o caminho direto ao seu ouvido. Continua a ouvir o zumbido, até que o barulho começa a ficar ensurdecedor como o apito de um trem perto demais. Mário coloca as mãos nos ouvidos e abre os olhos. Para sua surpresa, a sombra está longe dele e continua se afastando. O som de trem não pára. Olha para trás. Mauri está com a mão apoiada na buzina do carro. Ao seu lado o tijolo e pedaços de vidro espalhados pelo chão. A sombra continua a recuar, passa para a calçada e em seguida para a parede do mesmo prédio em que estava. Vai subindo, subindo até saltar da parede para o céu escuro, e então não pode mais ser vista.
—Você conseguiu Mauri— grita Mário aliviado — Você agiu rápido.
— Foi a única coisa que eu achei que pudesse fazer um barulho suficientemente alto para afugentar aquela coisa — responde o irmão, também gritando. Aos poucos os sons normais começam a voltar. O barulho do mar. Cachorros latindo. Pessoas. Automóveis…
—Pode parar Mauri, acho que o vulto já foi embora.
Mauri nem percebeu que ainda estava com a mão na buzina. Quando parou, os sons da rua aumentam de repente assustando os dois. Como quando alguém aumenta o som de um rádio de uma hora para outra. ”Que barulho é esse? O que está acontecendo aí embaixo?” Alguém grita da janela de um apartamento. Agora várias janelas estão iluminadas, até mesmo algumas do prédio onde estivera a sombra. “Quem está aí?… O que está acontecendo?”… Várias pessoas falam ao mesmo tempo. Parados perto do carro, Mário e Mauri estão meio atordoados ainda. ”Ali, os dois garotos na rua…” alguém fala de uma janela apontando para eles. ”São ladrões, estão querendo roubar o carro…”. ”É verdade, Já quebraram o vidro… Vamos chamar a polícia…”. A coisa está ficando feia. Pessoas falam por toda parte. “Vamos descer… Peguem os dois…”.
—É melhor a gente ir embora, Mauri. Estão achando que somos ladrões.
—Mas nós não fizemos nada. —Eu sei, mas quem é que vai acreditar na nossa história? Temos que sair daqui o mais rápido possível.
—Mas e o carro, eu quebrei o vidro…
—Não se preocupe com isso. É um carro novo, na certa tem seguro, o dono não terá nenhum prejuízo.
Algumas pessoas começam a aparecer na calçada. O jeito é sair correndo mesmo. É o que fazem. Correm o mais rápido que podem. É bem mais fácil correr sem ter que gritar ao mesmo tempo. Dobram várias esquinas, e só diminuem o ritmo quando os gritos de protestos dos moradores ficam para trás.
—Acho que conseguimos despistá—los, Mauri.
—Parece que sim. Também, do jeito que corremos. — A partir de amanhã vamos voltar pela avenida da praia, é mais movimentada e barulhenta.
Os dois ficam em silêncio por um instante.
—Mário, o que era aquilo afinal. — Mauri quebra o silêncio, referindo-se à estranha experiência que acabaram de ter.
—Não sei Mauri, e acho que nunca saberemos. Talvez alguma coisa que exista somente nas noites muito escuras.
—Coisas que descem do céu para roubar os sons da cidade?
—É talvez.
Os dois voltam a ficar quietos. Mauri olha para cima, o céu está cheio de estrelas agora. Uma enorme lua ilumina a rua asfaltada por onde andam. O vento está mais fraco. Parece que amanhã será um dia bom para procurar conchas exóticas na praia afinal.
—Mauri… —
O que é Mario?
—Vamos conversar alguma coisa. Este silêncio me deixa nervoso.
—Tudo bem…
Assim, os dois garotos seguem para casa numa noite que já não está tão escura mais. Mauri volta a dar sonoras reguadas na cabeça do irmão, que não resmunga mais “Pára Mauri… Pára Mauri…”. Seguem pela noite, conversando pelos cotovelos, como diria sua mãe.

Fim
Mário e Mauri são personagens do livro “Os estranhos anões gigantes” de Lauro elme, publicado em 2007 pela Edições SM. Para saber mais, clique aqui.
Aventirinha: O Vulto
As aventuras de Mário e Mauri
O vulto
Segunda parte:
Um frio na espinha e os cabelos da nuca se arrepiam.
—Vamos embora daqui. Rápido — Mauri é o primeiro a reagir.
—Mas o que é aquilo? — Mário fala baixo. O garoto continua parado procurando uma explicação lógica. —Não importa o que é, está vindo pra cima da gente, vamos embora rápido.
Mauri ameaça correr. Para frente não é possível, a próxima esquina está perto, mas teriam que passar pela frente do prédio. Com certeza a sombra os alcançaria antes.
—O jeito é voltar. — Fala Mauri numa voz estranhamente baixa.
Com certeza Mario não ouviu, porque continua parado. A sombra já está na calçada e continua avançando. Voltar também é complicado. A última esquina ficou muito para trás, eles já haviam andado mais da metade do quarteirão. A sombra continua avançando, está agora no meio da rua.
—Vamos embora Mário, corra! — A voz de Mauri quase não sai mais.
É estranho como o silêncio parece dominar tudo agora. Ninguém na rua. Nem um cachorro latindo. Mauri não consegue ouvir os próprios passos na calçada.
— Corra, Mário, corra.
Mauri dá cinco passos e olha para trás. Mário continua parado no mesmo lugar. A sombra está quase sobre ele agora.
— Márioooooo… Mauri grita duas vezes com toda a força que consegue. — Márioooooo… Sua voz não sai tão alto quanto seria de se esperar, mesmo assim, dentro do silêncio em que se encontra, o som que sai parece o coro de muitas vozes. Imediatamente a sombra se afasta uns três metros, parece se encolher um pouco. Mário está livre. Mas apenas por pouco tempo. Logo a sombra volta a se mover em sua direção.
Mario continua parado no mesmo lugar. A sombra está quase sobre ele agora. Mauri puxa o irmão pela camiseta. Este parece sair do estado de hipnotismo em que se encontrava e começa a seguir o irmão. Mauri é mais rápido e corre na frente. Mário segue desajeitado e devagar, logo a sombra está quase alcançando-o novamente.
Mauri volta alguns passos para perto do irmão e grita outra vez. —Márioooooo — . Como da primeira vez, a sombra se afasta um pouco. Então Mario percebe o que está acontecendo.
—Mauri, a sombra precisa de silêncio, ela não gosta de barulho. Mas apenas sons muito alto conseguem atingi—la. Temos que gritar o mais alto que conseguirmos. Começam então a correr e gritar como dois loucos. —Saiiiiiiiiiiiiii… Vá embooooora… desapareeeeeç….. Aaaaaa… Ooooo… Uuuuuu…
A cada grito a sombra recua um pouco, mas logo volta a se mover em direção a eles. Os gritos começam a deixar os dois garotos cansados. É extremamente difícil correr e gritar tão alto. Suas pernas começam a ficar bambas. A esquina está longe, não irão conseguir. Mauri poderia ir mais rápido, mas prefere ficar junto do irmão. Continuam gritando. — Ooooooo… Aaaaaaaaa…
Então Mário pára. —Não consigo mais Mauri. Corre você.
Mauri também não consegue mais gritar. Os dois estão exaustos. A sombra continua avançando. Agora vem mais rápido em direção a Mário. Mauri não sabe o que fazer, não tem mais forças para ajudar o irmão. Com as mãos nos joelhos e respirando com dificuldade, apenas observa Mário, que num esforço desesperado começa a pegar pedras no chão e jogá—las no vulto. Isso, no entanto, não surte o menor efeito, as pedras parecem sumir dentro da sombra espessa. A sombra está agora a apenas dois passos de Mário. O garoto já não reage mais, apenas espera.
Nesse momento Mauri fala para si mesmo: “É isso, uma pedra.”. Esquecendo o cansaço, o garoto pega um pesado tijolo que encontra na calçada, corre para perto do irmão e arremessa a pedra contra a janela de um carro estacionado. O primeiro impacto apenas trinca o vidro, deixando um desenho de teia de aranha. A sombra está agora a apenas um passo de Mário. Outra tentativa e desta vez, sem nenhum barulho, o vidro explode em milhões de pedacinhos brilhantes como cristais.
Mário olha para trás sem entender nada. “Isso não adianta” pensa. Volta—se para o vulto que está a dez centímetros dos seus pés, e prepara—se para o inevitável. Começa sentir o ar gelado como de uma manhã de inverno e um silêncio assustador, que o faz ouvir, ou sentir, as batidas do próprio coração. Fecha os olhos e prepara—se para o inevitável. Não há nada mais que possa fazer.
Continua. Próxima postagem 17/12/2008
Mário e Mauri são personagens do livro “Os estranhos anões gigantes” de Lauro elme, publicado em 2007 pela Edições SM. Para saber mais, clique aqui.
Aventirinha: O Vulto
As aventuras de Mário e Mauri
O vulto
Primeira parte:
Já é noite quando Mário e Mauri saem da escola. Hoje foi dia de provas e por isso saíram mais tarde que de costume. Mário, o mais inteligente, terminou logo as perguntas de matemática, mas ficou enroscado nas questões de português. Já Mauri, o mais esperto, foi bem em português, mas empacou em matemática.
Os dois garotos são irmãos e moram na cidade de Praia Grande, no litoral de São Paulo. Moram no centro e estudam em uma escola perto de um morro com um nome engraçado: “Morro do Xixová”. O caminho da escola até em casa é longo, e com o fim da temporada de turistas as ruas estão silenciosas e desertas.
Os garotos poderiam voltar pela avenida da praia, onde sempre há um pouco de movimento, mas o vento frio que vem do mar desmancha o cabelo e deixa as roupas cheias de areia. Por isso preferem as ruas de dentro. Caminham devagar e, como sempre, “conversando pelos cotovelos” (como diria sua mãe).
Mauri está sempre animado, enquanto fala corre dando voltas em torno do irmão, cutucando e fazendo cócegas.
— Aposto que amanhã vai fazer sol, assim poderemos ir até a praia procurar conchas exóticas.
— Com esse vento abafado, nem pensar, amanhã vai chover o dia todo. — Mario é mais pesado que o irmão e não tem a mesma agilidade. Por isso fica empurrando Mauri com as mãos e repetindo sem muita convicção: — Pára Mauri… Pára Mauri.
Eles estão no meio do caminho, em uma rua cheia de prédios altos, todos vazios pela falta de turistas. Apenas uma ou outra janela iluminada mostra que existem alguns moradores no local. De repente Mário pára. Alguma coisa não está certa naquela rua. Ele não sabe o que é, e ele não gosta disso. Mário não gosta de nada que sua mente não possa entender rapidamente.
Mauri continua a correr em volta do irmão. Sem notar que este parou, continua a provocá—lo, usando agora uma pequena régua de plástico para dar batidas sonoras em suas costas.
— Pára Mauri… Pára Mauri. — Desta vez Mário falou com mais força. Não estava apenas repetindo o refrão. Estava dando uma ordem. Imediatamente Mauri parou, preocupado.
— O que foi Mário?
— Olhe aquilo.
— Onde? O quê?
— Ali, na parede daquele prédio. Aquele vulto. Mário aponta para uma imensa sombra escura na parede de um prédio. Eles estão a uns vinte metros do local. O prédio deve ter uns 15 andares, e está com todas as janelas apagadas. A sombra ocupa o espaço de três andares e está perto do topo do edifício.
— Aquilo é só a sombra de uma árvore — fala Mauri, despreocupado. Mas Mário não está convencido.
— Olhe em volta, não há nenhuma árvore tão grande que possa projetar uma sombra naquela altura.
— Então é uma mancha na pintura.
— Não.
— A sombra de uma nuvem.
— Também não.
— Então não é nada Mário, vamos embora — conclui Mauri, começando a ficar preocupado também.
— Olhe, olhe… — grita Mário ainda parado no lugar. — Parece que está se movendo. — De fato, a mancha desce pelo prédio, como se escorresse pela parede.
— Não falei? Era sombra de uma nuvem, — fala Mauri, com seu jeito prático de resolver tudo logo de primeira.
— Mas não tem nuvens no céu… Nem está ventando mais.
É verdade. Aquela ventania de desmanchar cabelo parou inexplicavelmente. De uma hora para outra. O céu está agora completamente escuro, e faz um silêncio que não haviam notado antes. Até mesmo o barulho abafado e constante das ondas na praia, a um quarteirão de distância, parou.
Assustados Mário e Mauri se olham e em seguida olham para o prédio.
A mancha continua a se mover para baixo. Parece escolher uma direção. Está vindo na direção deles.
Continua. Próxima postagem 10/12/2008
Mário e Mauri são personagens do livro “Os estranhos anões gigantes” de Lauro elme, publicado em 2007
pela Edições SM. Para saber mais, clique aqui.












