O primeiro dia
A primeira coisa que lembro foi de ver uma multidão de crianças ao meu redor. Deviam ser prisioneiras também, porque usavam o mesmo uniforme que eu. Entramos aos empurrões pelo enorme portão verde. Pela altura dos muros devia ser uma penitenciária de segurança máxima.
O que eu estava fazendo ali? Qual havia sido o meu crime? Qual o crime de todas aquelas crianças? Essas preocupações pareciam ser somente minhas, porque a maioria dos outros prisioneiros corriam alegres e barulhentos. Na certa eram criminosos veteranos.
Alguns carcereiros de aventais brancos nos obrigaram a seguir em longas filas para nossas celas. Por sorte o local era grande e bem iluminado. Pela primeira vez reparei que era uma penitenciária mista, porque havia algumas meninas também na cela. Por ordem dos carcereiros, sentamos nas cadeira que haviam no local e esperamos em silêncio. Eu queria falar. Queria explicar que era inocente, que tudo aquilo devia ser um terrível engano, no entanto permaneci sentado olhando para frente. Talvez eles me soltassem por bom comportamento.
Em certo momento, uma mulher enorme e bem vestida entrou na cela. Notei que até o carcereiro que nos vigiava da porta olhou com respeito. Na certa era a diretora da prisão. A mulher falou por muito tempo sobre si mesma, sobre as regras da prisão e outros assuntos totalmente incompreensíveis para mim. Só parou de falar quando uma forte sirene soou no local.
Ao ouvirem a sirene todos correram para a porta. Eu segui a multidão, na certa era a hora do banho de sol dos prisioneiros. Eu estava certo, porque boa parte dos detentos foi para o pátio jogar bola ou sentar embaixo das árvores. Outra parte entrou numa longa fila por um prato de comida. Era a hora do almoço também.
Eu acabei entrando na fila. Eu não tinha um pingo de fome, e comida de prisão não era algo que eu queria experimentar, mesmo assim segui as regras para não demonstrar desobediência. Quando chegou minha vez, a carcereira encarregada da cozinha me entregou um prato que, surpreendentemente, cheirava bem. Enquanto entregava a comida, deu um sorriso bondoso e gentil. Mas eu não caí nessa, na certa ela estava querendo ganhar nossa confiança para evitar rebeliões e motins.
Depois do almoço a terrível rotina de ir para cela e ouvir a incansável diretora se repetiu. Isso durou até a sirene tocar novamente. Embora o dia estivesse claro pela janela, imaginei que havia chegado a hora de jantar e dormir. Porque presos devem dormir e acordar cedo.
No entanto tive uma grande surpresa quando, ao invés de ir para o refeitório, a multidão correu para os portões da penitenciária. Prisioneiros e prisioneiras passavam por mim correndo e gritando e quase me levando ao chão. O que era aquilo? Uma fuga em massa? Eu queria seguir a turba. A visão da rua e do sol me fazia querer a liberdade, a doce liberdade. Por outro lado eu tinha medo de fugir. Na certa haviam guardas armados nas torres de vigia. Além do mais, se eu tentasse uma fuga, poderia piorar minha ficha criminal e perderia a chance de uma audiência para uma liberdade provisória no futuro.
Eu estava pensando nessas consequências quando um carcereiro me pegou pelo braço. “Eu juro que não ia fugir”, tentei falar, mas o homem não me deu ouvidos e continuou a me empurrar. Mas não me empurrou de volta para a cela como eu esperava e sim na direção da saída. Então eu entendi. Não era uma fuga em massa, aquilo era um induto. Um prêmio por bom comportamento.
Tudo ficou mais claro quando eu vi minha mãe me esperando no portão. Aquilo era melhor que um indulto. Na certa ela havia conseguido um habeas-corpus. Na certa havia contratado um advogado e provado minha inocência.
Então eu corri para ela. Nunca desejei tanto sentir seu abraço seu perfume. Eu queria falar, queria gritar como a prisão era horrível. Queria dizer dos momentos torturantes que passei. mas um soluço de choro me impedia de dizer qualquer palavra.
Começamos a caminhar de mãos dadas. A rua estava agora tomada por ex-detentos que, assim como eu haviam conseguido a liberdade. Demos uns cinco passos, até que minha mãe olhou para mim e perguntou com os olhos brilhando de curiosidade.
Então? Como foi seu primeiro dia de aula?
- 4 comentários
- lauroelme | 20 de fevereiro de 2010 | 19:50 | Aventirinhas []




