O anão, o mago e o guerreiro.
O anão, o mago e o guerreiro descansavam à sombra de uma árvore, entre um RPG e outro, quando o guerreiro perguntou ao mago:
- Quem será que venceria uma batalha entre nós dois?
- Eu certamente – respondeu na mesma hora o mago. – Com minha magia superior eu aniquilaria você sem tirar uma lasca do meu cajado.
- Discordo – retrucou o guerreiro. – Meu escudo repeliria seus ataques e minha espada cortaria seu cajado em dois.
- O que você acha anão? – perguntou o mago. – Quem venceria?
O anão acompanhava a conversa deitado na relva com um ramo de capim à boca. Levantou, limpou as roupas com as mãos e respondeu:
- Não passou pela cabeça de vocês que talvez eu possa vencer os dois?
O guerreiro e o mago caíram na gargalhada. O guerreiro dava murros no chão sem conseguir parar de rir. O mago, com a mão na barriga, dobrava o corpo ao meio tentando parar o acesso de riso.
- Desculpe amigo anão – falou o guerreiro ainda rindo, – mas acho que você não está à altura de uma luta contra nós.
- Não mesmo – completou o mago sem fôlego. – Está muito baixo.
Os dois voltaram a rir ainda mais. O anão resmungou alguma coisa mal humorada na língua mal humorada dos anões.
- Não se zangue amigo – voltou a falar o mago vendo a reação do anão. – Eu posso dar um jeito nisso. Com minha magia posso deixá-lo da nossa altura, para uma luta justa.
- E por que você acha que eu gostaria de ter a altura de vocês? – Perguntou o anão ainda de mal humor. – Por que vocês acham que todo o anão quer ser alto? Eu estou feliz do jeito que sou. Me daria tontura ter a cabeça tão longe do chão como vocês. – fez uma pausa, resmungou e concluiu: – Muito obrigado mago, mas pode afastar sua bruxaria de mim. Não quero virar um pernalta desajeitado como vocês. Quero continuar do meu tamanho mesmo.
- Pernalta desajeitado? – Reclamou o guerreiro com um sorriso divertido. – Faça o seguinte mago. Use sua magia para nos deixar do tamanho do anão, assim poderemos provar a ele que jamais nos venceria em uma luta.
- Ótima ideia – concordou o mago. – Vamos dar uma lição nesse pequeno. – Completou sorrindo com a mão no ombro do anão.
E assim aconteceu. O mago proferiu algumas palavras místicas, tocou levemente com o cajado na cabeça do guerreiro e depois na própria cabeça. No mesmo instante uma nuvem de fumaça escondeu os dois. Quando a fumaça se desfez, os dois estavam do mesmo tamanho do anão. Suas roupas e armas haviam diminuído na mesma proporção.
- Nós estamos com a mesma força e nossas armas com a mesma resistência – explicou o mago. – Apenas estamos menor em tamanho.
- Ótimo! – exclamou o guerreiro olhando para seu corpo. – Até que este tamanho me cai bem. Agora se prepare para uma lição anão. Você me parece mais forte visto dessa altura, por isso será mais divertido derrota-lo. Não se preocupe, não vou machuca-lo. Quero apenas joga-lo sentado na grama.
Mas falar era mais fácil que fazer, e quem acabou sentado no chão foi o guerreiro, com o traseiro e o orgulho feridos. Isso porque ele estava confiante demais. Quando partiu para o ataque, disposto a derrubar o anão com o seu escudo, não esperava o potente golpe de machado que partiu o escudo em dois. Em seguida tentou tirar o machado do anão com um golpe da espada, mas quando as armas se chocaram, o guerreiro acabou rodopiando sobre os calcanhares e ficando de costas para o oponente. O anão então tomou impulso e deu-lhe uma potente cabeçada no traseiro, arremessando-o a cinco metros de distância.
- Parece que você subestimou nosso pequeno amigo – falou o mago rindo da cena. – Vou mostrar como se faz.
Falando isso, o mago proferiu algumas palavras incompreensíveis e apontou seu cajado. O anão se esquivou rapidamente do ataque. Por ser baixo era fácil para ele dar cambalhotas para os lados, fugindo assim do ataque adversário.
- Fique parado anão – resmungou o mago atirando raios de magia por todos os lados.
Como não conseguisse acertar o oponente, o mago então bateu seu cajado no chão proferindo novas palavras mágicas. No mesmo instante inúmeras rochas, pequenas e grandes, surgiram por todo o terreno, impedindo o anão de continuar com as cambalhotas. O anão teve que parar. Satisfeito com o resultado o mago apontou novamente o cajado e disparou nova magia. O anão não tinha como evitar o raio, as rochas eram grandes o suficiente para evitar suas cambalhotas, mas pequenas demais para se esconder atrás. Por isso cruzou seu poderoso machado contra o peito como um escudo e enfrentou o ataque. A tática deu certo e o feitiço não o atingiu. Porém seu poderoso machado, que absorveu todo o ataque, acabou se transformando numa imensa pena cinzenta de avestruz.
- Parece que você encontrou um arma à altura da sua valentia – falou o mago rindo alto e sacudindo o corpo.
O anão olhou para o mago em seu acesso de riso, olhou para o seu machado transformado em pena, teve uma ideia e correu para frente. Chegou junto ao mago no momento em que este começava a preparar um novo ataque mágico. O anão, usando a pena como uma espada, fez cócegas no pescoço do mago impedindo-o de completar o ataque. Como resultado, as palavras mágicas saíram entrecortadas com o riso, anulando o efeito da magia. Da ponta do bastão saiu apenas uma chuva de pequenas estrelas coloridas, como fogos de artifícios. O anão continuou com sua tática impedindo o mago de evocar um magia por inteiro. O mago ria, tossia e espirrava com as cócegas tentando sempre evocar um feitiço. Mas a cada espirro, um arco-íris saia da ponta do cajado e iluminava o céu. A cada gargalhada o chão em torno deles se enchia de margaridas de todas as cores. Coelhos verdes apareciam saltitando pela grama. Pequenos elefantes rosas, com minúsculas asas, voavam pelo céu. O espetáculo mágico encantaria a mais emburrada das crianças.
Por fim o mago desistiu, jogou o cajado para o lado, sentou-se na grama e, ainda gargalhando, conseguiu falar:
- Muito bem amigo anão, você venceu, eu desisto.
O anão deu um sorriso satisfeito e parou com a tortura.
Mais tarde naquele dia, quando o mago e o guerreiro já haviam voltado ao tamanho real, a pena de avestruz era um machado novamente e o escudo do guerreiro estava consertado, os três amigos puseram-se a caminhar. O mago e o guerreiro tentavam entender como pôde o anão vencer os dois. Chegaram então à conclusão que o anão vencera porque era anão há muito tempo, porque acreditava e confiava em si mesmo, nunca tentando ser algo que não era. Porque era feliz, lutava e pensava como um anão e, principalmente, porque sabia que o tamanho de um homem não está na sua altura, e sim na grandeza da sua vontade.
- Isso mesmo – concordou o anão bem humorado, na língua bem humorada dos anões. – Isso mesmo.
Os três amigos sorriram e continuaram a caminhar à procura de um novo RPG.
fim
- Um comentário
- lauroelme | 15 de outubro de 2009 | 22:40 | Aventirinhas []




