Aventirinha: O Vulto
As aventuras de Mário e Mauri
O vulto
Terceira parte (final)
Mário começa a ouvir então um zumbido fraquinho, como de um pernilongo, que vai aumentando devagar como se o inseto estivesse achando o caminho direto ao seu ouvido. Continua a ouvir o zumbido, até que o barulho começa a ficar ensurdecedor como o apito de um trem perto demais. Mário coloca as mãos nos ouvidos e abre os olhos. Para sua surpresa, a sombra está longe dele e continua se afastando. O som de trem não pára. Olha para trás. Mauri está com a mão apoiada na buzina do carro. Ao seu lado o tijolo e pedaços de vidro espalhados pelo chão. A sombra continua a recuar, passa para a calçada e em seguida para a parede do mesmo prédio em que estava. Vai subindo, subindo até saltar da parede para o céu escuro, e então não pode mais ser vista.
—Você conseguiu Mauri— grita Mário aliviado — Você agiu rápido.
— Foi a única coisa que eu achei que pudesse fazer um barulho suficientemente alto para afugentar aquela coisa — responde o irmão, também gritando. Aos poucos os sons normais começam a voltar. O barulho do mar. Cachorros latindo. Pessoas. Automóveis…
—Pode parar Mauri, acho que o vulto já foi embora.
Mauri nem percebeu que ainda estava com a mão na buzina. Quando parou, os sons da rua aumentam de repente assustando os dois. Como quando alguém aumenta o som de um rádio de uma hora para outra. ”Que barulho é esse? O que está acontecendo aí embaixo?” Alguém grita da janela de um apartamento. Agora várias janelas estão iluminadas, até mesmo algumas do prédio onde estivera a sombra. “Quem está aí?… O que está acontecendo?”… Várias pessoas falam ao mesmo tempo. Parados perto do carro, Mário e Mauri estão meio atordoados ainda. ”Ali, os dois garotos na rua…” alguém fala de uma janela apontando para eles. ”São ladrões, estão querendo roubar o carro…”. ”É verdade, Já quebraram o vidro… Vamos chamar a polícia…”. A coisa está ficando feia. Pessoas falam por toda parte. “Vamos descer… Peguem os dois…”.
—É melhor a gente ir embora, Mauri. Estão achando que somos ladrões.
—Mas nós não fizemos nada. —Eu sei, mas quem é que vai acreditar na nossa história? Temos que sair daqui o mais rápido possível.
—Mas e o carro, eu quebrei o vidro…
—Não se preocupe com isso. É um carro novo, na certa tem seguro, o dono não terá nenhum prejuízo.
Algumas pessoas começam a aparecer na calçada. O jeito é sair correndo mesmo. É o que fazem. Correm o mais rápido que podem. É bem mais fácil correr sem ter que gritar ao mesmo tempo. Dobram várias esquinas, e só diminuem o ritmo quando os gritos de protestos dos moradores ficam para trás.
—Acho que conseguimos despistá—los, Mauri.
—Parece que sim. Também, do jeito que corremos. — A partir de amanhã vamos voltar pela avenida da praia, é mais movimentada e barulhenta.
Os dois ficam em silêncio por um instante.
—Mário, o que era aquilo afinal. — Mauri quebra o silêncio, referindo-se à estranha experiência que acabaram de ter.
—Não sei Mauri, e acho que nunca saberemos. Talvez alguma coisa que exista somente nas noites muito escuras.
—Coisas que descem do céu para roubar os sons da cidade?
—É talvez.
Os dois voltam a ficar quietos. Mauri olha para cima, o céu está cheio de estrelas agora. Uma enorme lua ilumina a rua asfaltada por onde andam. O vento está mais fraco. Parece que amanhã será um dia bom para procurar conchas exóticas na praia afinal.
—Mauri… —
O que é Mario?
—Vamos conversar alguma coisa. Este silêncio me deixa nervoso.
—Tudo bem…
Assim, os dois garotos seguem para casa numa noite que já não está tão escura mais. Mauri volta a dar sonoras reguadas na cabeça do irmão, que não resmunga mais “Pára Mauri… Pára Mauri…”. Seguem pela noite, conversando pelos cotovelos, como diria sua mãe.

Fim
Mário e Mauri são personagens do livro “Os estranhos anões gigantes” de Lauro elme, publicado em 2007 pela Edições SM. Para saber mais, clique aqui.
- lauroelme | 17 de dezembro de 2008 | 8:37 | Aventirinhas []



