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Aventirinha: O Vulto

As aventuras de Mário e Mauri
O vulto

Segunda parte:

Um frio na espinha e os cabelos da nuca se arrepiam.

—Vamos embora daqui. Rápido — Mauri é o primeiro a reagir.
—Mas o que é aquilo? — Mário fala baixo. O garoto continua parado procurando uma explicação lógica. —Não importa o que é, está vindo pra cima da gente, vamos embora rápido.

Mauri ameaça correr. Para frente não é possível, a próxima esquina está perto, mas teriam que passar pela frente do prédio. Com certeza a sombra os alcançaria antes.

—O jeito é voltar. — Fala Mauri numa voz estranhamente baixa.

Com certeza Mario não ouviu, porque continua parado. A sombra já está na calçada e continua avançando. Voltar também é complicado. A última esquina ficou muito para trás, eles já haviam andado mais da metade do quarteirão. A sombra continua avançando, está agora no meio da rua.

—Vamos embora Mário, corra! — A voz de Mauri quase não sai mais.

É estranho como o silêncio parece dominar tudo agora. Ninguém na rua. Nem um cachorro latindo. Mauri não consegue ouvir os próprios passos na calçada.

— Corra, Mário, corra.

Mauri dá cinco passos e olha para trás. Mário continua parado no mesmo lugar. A sombra está quase sobre ele agora.

— Márioooooo… Mauri grita duas vezes com toda a força que consegue. — Márioooooo… Sua voz não sai tão alto quanto seria de se esperar, mesmo assim, dentro do silêncio em que se encontra, o som que sai parece o coro de muitas vozes. Imediatamente a sombra se afasta uns três metros, parece se encolher um pouco. Mário está livre. Mas apenas por pouco tempo. Logo a sombra volta a se mover em sua direção.

Mario continua parado no mesmo lugar. A sombra está quase sobre ele agora. Mauri puxa o irmão pela camiseta. Este parece sair do estado de hipnotismo em que se encontrava e começa a seguir o irmão. Mauri é mais rápido e corre na frente. Mário segue desajeitado e devagar, logo a sombra está quase alcançando-o novamente.

Mauri volta alguns passos para perto do irmão e grita outra vez. —Márioooooo — . Como da primeira vez, a sombra se afasta um pouco. Então Mario percebe o que está acontecendo.

—Mauri, a sombra precisa de silêncio, ela não gosta de barulho. Mas apenas sons muito alto conseguem atingi—la. Temos que gritar o mais alto que conseguirmos. Começam então a correr e gritar como dois loucos. —Saiiiiiiiiiiiiii… Vá embooooora… desapareeeeeç….. Aaaaaa… Ooooo… Uuuuuu…

ovulto_03.jpg

A cada grito a sombra recua um pouco, mas logo volta a se mover em direção a eles. Os gritos começam a deixar os dois garotos cansados. É extremamente difícil correr e gritar tão alto. Suas pernas começam a ficar bambas. A esquina está longe, não irão conseguir. Mauri poderia ir mais rápido, mas prefere ficar junto do irmão. Continuam gritando. — Ooooooo… Aaaaaaaaa…

Então Mário pára. —Não consigo mais Mauri. Corre você.

Mauri também não consegue mais gritar. Os dois estão exaustos. A sombra continua avançando. Agora vem mais rápido em direção a Mário. Mauri não sabe o que fazer, não tem mais forças para ajudar o irmão. Com as mãos nos joelhos e respirando com dificuldade, apenas observa Mário, que num esforço desesperado começa a pegar pedras no chão e jogá—las no vulto. Isso, no entanto, não surte o menor efeito, as pedras parecem sumir dentro da sombra espessa. A sombra está agora a apenas dois passos de Mário. O garoto já não reage mais, apenas espera.

Nesse momento Mauri fala para si mesmo: “É isso, uma pedra.”. Esquecendo o cansaço, o garoto pega um pesado tijolo que encontra na calçada, corre para perto do irmão e arremessa a pedra contra a janela de um carro estacionado. O primeiro impacto apenas trinca o vidro, deixando um desenho de teia de aranha. A sombra está agora a apenas um passo de Mário. Outra tentativa e desta vez, sem nenhum barulho, o vidro explode em milhões de pedacinhos brilhantes como cristais.

Mário olha para trás sem entender nada. “Isso não adianta” pensa. Volta—se para o vulto que está a dez centímetros dos seus pés, e prepara—se para o inevitável. Começa sentir o ar gelado como de uma manhã de inverno e um silêncio assustador, que o faz ouvir, ou sentir, as batidas do próprio coração. Fecha os olhos e prepara—se para o inevitável. Não há nada mais que possa fazer.

ovulto_04.jpg

Continua. Próxima postagem 17/12/2008

Mário e Mauri são personagens do livro “Os estranhos anões gigantes” de Lauro elme, publicado em 2007 pela Edições SM. Para saber mais, clique aqui.

lauroelme | 10 de dezembro de 2008 | 8:54 | Aventirinhas []
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